Por Sérgio Pires
O início de um novo ciclo traz consigo a força da renovação, mas, em 2026, essa simbologia ganha contornos de urgência democrática. O cenário político brasileiro não é apenas um campo de debate de ideias, mas uma arena de disputa de projetos de sociedade radicalmente opostos. De um lado, a manutenção das estruturas de opressão; de outro, a esperança de um país que retome o fio da história em direção à soberania e à justiça social.
A Convergência da Crise e o Embate de Projetos
Existe um consenso forçado: ninguém mais pode ignorar que o Brasil sangra com a fome, o desemprego estrutural e o abismo da desigualdade. Contudo, enquanto as forças progressistas enxergam esses problemas como frutos de uma herança colonial e de um capitalismo periférico perverso, a direita tenta mascarar a realidade. As eleições deste ano são o palco legítimo para denunciar que não há saída sem a presença forte do Estado e o protagonismo das maiorias populares.
O Mito da Meritocracia: A Face Perversa do Neoliberalismo
O discurso da meritocracia, pilar da direita brasileira, nada mais é do que uma ferramenta de manutenção de privilégios. Ao pregar que o sucesso depende apenas do esforço individual, essa lógica ignora deliberadamente o racismo estrutural, a exclusão das periferias e o desmantelamento das políticas públicas. É uma tentativa de naturalizar a injustiça: querem convencer o filho do trabalhador que a falta de oportunidades é culpa dele, e não de um sistema que concentra renda nas mãos de 1% da população.
Jesus e a Práxis da Libertação
Diante do discurso religioso abordado por parte das igrejas evangélicas, não podemos esquecer que a práxis religiosa do cristianismo além de pregar o reino de Deus e a salvação por meio de Jesus, tem como base a fé, tantas vezes sequestrada por discursos de ódio e prosperidade individualista, encontra sua verdadeira essência na Teologia da Libertação. A mensagem de Jesus sobre o Reino de Deus é, em sua gênese, uma mensagem de subversão da ordem injusta. Ao dizer que “os últimos serão os primeiros”, Jesus não propunha apenas caridade, mas uma inversão das estruturas de poder. A opção preferencial pelos pobres é o que deve guiar o debate ético sobre o que significa ser uma nação, mas os quatro primeiros evangelhos são trocados pela má interpretação das cartas paulinas.
Desenvolvimento: Para Quem e Para Quê?
Além da questão religiosa, a rejeição da justiça social por parte das elites, sob o pretexto de “responsabilidade fiscal”, é uma falácia para garantir o lucro do mercado financeiro em detrimento da vida. Não existe progresso sustentável sobre o lixo da fome. A esquerda defende que o crescimento econômico só faz sentido se for acompanhado de distribuição de riqueza, reforma agrária, educação pública de qualidade e a garantia de direitos para a classe trabalhadora.
O Exemplo de Luta de Júlio Lancellotti
Diante de todo este cenário, a atuação do Padre Júlio Lancellotti é a tradução viva da fé comprometida com a transformação social. Ele não apenas acolhe; ele confronta a aporofobia (o ódio aos pobres) e as políticas higienistas do Estado. Sua trajetória nos ensina que a luta contra as estruturas que produzem a exclusão é uma tarefa política permanente. Ele é o exemplo de que a solidariedade deve ser acompanhada da denúncia contra o capital que desumaniza.
O Voto como Ferramenta de Luta
O ciclo eleitoral que se inicia é o momento de decidir se seguiremos reféns do individualismo ou se construiremos um projeto popular e democrático. A esperança para o novo ano não pode ser passiva; ela deve ser cultivada na organização coletiva, na ocupação das ruas e nas urnas. A transformação duradoura virá da nossa capacidade de unir justiça social, dignidade humana e a coragem de enfrentar aqueles que lucram com a desigualdade. Pela vida, pela justiça e pelo Brasil.



