Matéria Especial – 80 anos da Cidade Ademar
Muito antes do asfalto da Cidade Ademar, antigos caminhos de terra batiam o compasso de uma bacia hidrográfica moldada por povos originários, mão de obra escravizada e as febres industriais do século XIX.
Por Sérgio Pires
Quem caminha hoje pelas calçadas movimentadas da Avenida Cupecê, cercado pelo fluxo incessante de automóveis e pelo comércio pulsante que define a Cidade Ademar, dificilmente consegue escutar os ecos do passado que repousam sob as camadas de asfalto. Contudo, uma investigação minuciosa em documentos paroquiais e relatórios territoriais dos séculos XVIII e XIX revela que a identidade profunda desta porção da Zona Sul de São Paulo está intrinsecamente ligada à água, ao relevo e às populações que rasgaram as primeiras trilhas na Mata Atlântica nativa.
A decisão de resgatar o nome histórico da região para batizar este jornal não é um mero capricho geográfico; trata-se de um ato de justiça arqueológica e cultural. O termo Cupecê carrega em sua fonética a marca indelével dos povos originários que habitavam o Planalto de Piratininga muito antes de as primeiras divisões de terras coloniais tomarem forma.
A Voz dos Povos Originários: O que diz o nome?
Derivado do tronco linguístico Tupi-Guarani, a etimologia mais consensual da palavra remete a Kûpe-se ou Kupe-ysá, cujo significado traduz-se como “atrás da água” ou “a vertente de trás”. Para os antigos geógrafos e exploradores que partiam do núcleo urbano e plano da antiga Vila de Santo Amaro em direção ao sudeste, o Cupecê representava um imponente “muro natural”.
Esse muro era formado por um extenso espigão — uma cadeia de colinas altas que funcionava como divisor de águas. O Córrego do Cupecê (também registrado historicamente como Córrego do Cordeiro ou Rio Itapura) nascia no topo dessas elevações. Assim, para quem olhava de Santo Amaro, aquela região representava o território que ficava literalmente escondido na encosta de trás do morro, na descida que se abria para os territórios que hoje compreendem Diadema e São Bernardo do Campo.
Antes do contato europeu, essas terras eram territórios de trânsito e subsistência dos povos Guaianás e Guarani (Mbyá e Ñandeva). Os Guaianás dominavam os campos altos e as franjas das matas, utilizando a rica rede de pequenos riachos da bacia do Cupecê como áreas de caça e coleta. Já os Guarani mantinham uma relação de profunda simbiose com as bacias hidrográficas, fazendo do vizinho Rio Jurubatuba (o “rio dos jerivás”) e de seus afluentes diretos suas artérias de transporte e pesca.
Peabirus e Correntes: As Trilhas Indígenas e a Escravidão
A malha viária que estruturou a ocupação da Zona Sul não nasceu do traço de engenheiros modernos, mas sim da sobreposição de antigas trilhas indígenas, os chamados peabirus. O caminho que cortava o Cupecê para conectar Santo Amaro às bordas de São Bernardo era uma dessas rotas milenares, aproveitada mais tarde pelos colonizadores jesuítas e, de forma mais sombria, pelos capitães do mato.
Documentos históricos datados de 1744 e 1745 expõem o ambiente de extrema tensão e violência que marcou estas paragens. As estradas que cruzavam o Cupecê e Santo Amaro eram descritas pelas autoridades coloniais como “infestadas de negros fugidos que atacavam os viajantes”. A densa vegetação e o relevo acidentado transformaram a região em um ponto estratégico para o estabelecimento de quilombos periféricos e rotas de fuga.
Para reprimir essa resistência, a Câmara paulistana mobilizava capitães do mato armados com espingardas e espadas, oferecendo recompensas expressivas em réis por cada escravizado capturado nas matas do Cupecê, tentando conter a força da população negra que buscava a liberdade naquelas brenhas.
A Era de Ouro das Olarias e a Construção da Capital
Com o avanço do século XIX, a vocação da bacia do Cupecê transicionou da atividade extrativista e de refúgio para uma febre industrial manufatureira que moldou a arquitetura da própria cidade de São Paulo. A chave para essa transformação estava no leito do próprio Córrego do Cupecê (Rio Itapura).
As várzeas úmidas do córrego possuíam um solo composto por espessas camadas de argila de altíssima qualidade. Entre as décadas de 1850 e 1880, grandes olarias instalaram-se ao longo das margens do rio para produzir tijolos e telhas em larga escala. Esse período coincidiu com o abandono gradual das técnicas coloniais de construção em taipa de pilão na capital, que passava a exigir edificações de alvenaria.
Os tijolos queimados nos fornos do Cupecê eram transportados por carros de boi através das antigas estradas de terra batida e, posteriormente, pela histórica ferrovia que ligava a Vila Mariana a Santo Amaro, abastecendo os canteiros de obras de uma São Paulo em plena metamorfose urbana. A força de trabalho que operava esses fornos escaldantes e extraía a lama pesada do fundo das várzeas era composta majoritariamente por trabalhadores escravizados e, nas décadas posteriores, por imigrantes que começavam a se fixar na periferia.
A Fragmentação e o Legado

A decadência das olarias no início do século XX, motivada pelo esgotamento das jazidas superficiais de argila e pela modernização dos transportes, abrindo espaço para os loteamentos residenciais. Um dos registros mais antigos de fragmentação fundiária na região remonta a 1832, quando glebas situadas “junto ao Córrego do Cordeiro (Cupecê)” começaram a ser fatiadas e vendidas a particulares, iniciando um processo de urbanização que engoliu os antigos sítios e fazendas a partir de 1925.
Hoje, ao adotar orgulhosamente o nome O Bairro do Cupecê, este veículo de comunicação não resgata apenas uma referência toponímica extinta pelas reformas urbanas. Resgata-se o reconhecimento de um território sagrado onde o sangue dos povos originários, o suor dos trabalhadores escravizados nas lavouras e olarias, e a força das águas do Rio Itapura desenharam as linhas mestras da nossa história. O Cupecê não está mais atrás do morro; ele é a base sobre a qual nossa identidade se ergue.



