Cupecê: Como os povos originários desenharam as avenidas da zona sul

Velhos registros de Santo Amaro e Jabaquara revelam que o traçado de grandes artérias modernas nasceu do conhecimento geográfico indígena e de ramificações do lendário Caminho do Peabirú.

Por Sérgio Pires

Quem passa diariamente pelo fluxo intenso de veículos da Avenida Cupecê ou cruza os limites de Cidade Ademar e Jabaquara raramente se dá conta de que está repetindo passos dados há séculos. Muito antes do planejamento urbano moderno, do asfalto ou da chegada dos primeiros colonizadores portugueses, a nossa região já era mapeada e percorrida por quem realmente conhecia este chão: os povos originários.

Registros históricos recuperados de atas e testamentos coloniais antigos, relatados pela historiadora Maria Helena Petrillo Berardi, na obra “Santo Amaro: Memória e História”, jogam luz sobre uma verdade frequentemente apagada: a malha rodoviária e urbana da Zona Sul profunda nasceu de uma “imemorial trilha indígena”. O texto detalha que essas veredas eram, na verdade, ramificações de um braço do famoso Caminho do Peabirú — a monumental rede transcontinental de caminhos pré-colombianos que interligava o Atlântico ao interior do continente.

A Iniciação Geográfica dos Colonos

A história oficial costuma focar na abertura de estradas pelos jesuítas e bandeirantes, mas o livro revela que os recém-chegados limitaram-se a caminhar por rotas já consolidadas. O texto é explícito ao afirmar que foi o conhecimento nativo que “propiciou ao colono sua iniciação à geografia nova”.

Foram os indígenas que, marchando em suas rotas tradicionais, decifraram a complexa topografia da nossa região. Eles descobriram os “mansos espigões” — as cristas mais altas das colinas — e cruzaram as serras por “certeiros vales”, evitando que os viajantes ficassem presos nos perigosos lamaçais da bacia hidrográfica local. Essa “trilha indígena”, mais tarde, foi “colocada a serviço do colono”, servindo de base para o fluxo de soldados, padres e comboios de bestas carregadas.

Do Nomadismo Gentio às Nossas Avenidas

O caminho que saía do centro de Piratininga rumo à antiga aldeia de Ibirapuera (Santo Amaro) passava exatamente pelos altos do Jabaquara e pelo espigão onde hoje está o Aeroporto de Congonhas. Era a “porta de entrada para o sertão”, uma região de trânsito intenso onde antes “se estirava o nomadismo do gentio andejo”.

Para descer em direção à região do Cupecê e alcançar o litoral sul, era preciso vencer as várzeas e cabeceiras de rios como o Córrego do Cordeiro e a Água Espraiada. Os nativos sabiam exatamente onde o leito desses rios era “vadeável” (raso o suficiente para ser cruzado a pé). Séculos depois, a busca por modernizar essa mesma rota ancestral resultou na abertura da antiga Autoestrada (atual Avenida Washington Luís) e, consequentemente, no nascimento da Avenida Cupecê como o grande eixo comercial e residencial que conhecemos.

Olhar para a Cupecê hoje, portanto, deve ser também um exercício de memória. Sob as camadas de concreto e a correria do transporte público, pulsa a herança viva dos povos originários, os verdadeiros engenheiros e arquitetos das primeiras estradas da nossa quebrada.

(Imagem acima é datada do ano de 1946 – Na altura do Jardim Miriam – autor desconhecido)

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