Muito além do fluxo comercial, os vales e matas que cercam o eixo da Cupecê e do Jabaquara foram palcos de guerrilhas organizadas por negros escravizados que desafiaram o Império e rebatizaram a geografia paulistana.
Por Sérgio Pires
As avenidas que cruzamos diariamente na Zona Sul profunda, como o corredor da Avenida Cupecê e seus arredores, escondem um passado de intensa guerra colonial onde o asfalto já foi chão de refúgio e insurgência preta. Longe de serem apenas rotas passivas de transporte, as matas e bacias hidrográficas da nossa região abrigaram quilombos fortemente organizados no século XVIII. Armados com espingardas e espadas, esses homens e mulheres escravizados estabeleceram uma rede de resistência que sabotou a economia da Coroa Portuguesa, transformando a nossa geografia em um verdadeiro mapa de busca pela liberdade.
Se na primeira parte desta imersão histórica vimos que os povos originários desenharam as cristas dos nossos espigões, as páginas recuperadas da obra da historiadora Maria Helena Petrillo Berardi trazem à tona a força do elemento africano na nossa formação territorial. Com o crescimento da exploração mineral na colônia, a cidade de São Paulo viu explodir o número de escravizados que, recusando-se a aceitar os maus-tratos de feitores e senhores, fugiam em direção aos densos capões de mato que cobriam o Jabaquara, a Cupecê e Santo Amaro.
A Guerrilha do Córrego da Traição
Essas comunidades não se limitavam a se esconder; elas contra-atacavam. Estrategicamente posicionados perto dos cursos d’água e das rotas de comércio, os quilombolas montavam emboscadas precisas contra os comboios de viajantes. É dessa tática militar de sobrevivência que nasce o nome de uma das vias mais conhecidas da nossa região: o Córrego da Traição, atual Avenida Bandeirantes. O termo “traição” foi cunhado pelos próprios colonizadores, surpreendidos pelas táticas de guerrilha preta nos limites que dividiam São Paulo e Santo Amaro.

O impacto dessa resistência foi devastador para a elite setecentista. Documentos de 1744 apontam que os quilombolas da Zona Sul andavam tão audazes e bem armados que os produtores rurais ficaram aterrorizados. O abastecimento de alimentos essenciais na capital, como leite, aves e ovos, simplesmente colapsou porque ninguém tinha coragem de cruzar as estradas que cortavam os nossos bairros.
A Caçada Imperial e o Eco da Resistência
A resposta institucional veio com violência extrema. Em meados da década de 1740, a Câmara Municipal mobilizou caçadores de recompensa e nomeou Martinho Rodrigues Gato, (neto de Manoel de Borba Gato) como capitão do mato de Santo Amaro, conferindo-lhe plenos poderes para sufocar as comunidades livres e punir severamente qualquer morador que se negasse a ajudar na captura.
Apesar da brutalidade das expedições punitivas, o livro destaca que os quilombolas continuaram a atemorizar e peitar os senhores locais por muito tempo. Os vales que hoje alimentam os córregos paralelos à Avenida Cupecê serviram de trincheira para homens que preferiram o risco da floresta à lógica das correntes.
Para nós, moradores da Cidade Ademar e região, redescobrir esses episódios altera fundamentalmente a nossa relação com o território. A Cupecê e suas conexões não são apenas vias de tráfego cinzentas; são caminhos historicamente conquistados sob o signo da contestação e da bravura. Reconhecer o solo da Zona Sul como um polo histórico de quilombos é devolver a dignidade e o protagonismo a quem usou nossa geografia como escudo para a liberdade.



