Muito além das urnas: Jardim Míriam, Vila Missionária, Vila Joaniza e Pedreira são os reais motores da nossa história.
Por Sérgio Pires
O calendário oficial celebrou no último dia 26 de junho o aniversário de 80 anos da Cidade Ademar, mas quem caminha pelas calçadas do nosso território sabe que a verdadeira identidade da região não foi desenhada nos gabinetes dos palácios governamentais. Enquanto o nome “Cidade Ademar” surgiu em meados do século XX como um rótulo político e eleitoral — uma homenagem arquitetada pelo grupo do então político Adhemar de Barros —, o verdadeiro motor econômico, social e cultural da nossa quebrada atende por outros nomes. São os trabalhadores do Jardim Míriam, da Vila Missionária e da Vila Joaniza que, no chão da fábrica, no balcão do comércio e no suor dos mutirões, transformaram o antigo isolamento do recanto de Santo Amaro no coração pulsante da Zona Sul profunda.

Celebrar o aniversário da nossa região exige, antes de tudo, o compromisso jornalístico com a verdade histórica. É preciso separar o que é demarcação administrativa do que é território vivo. Geograficamente, o que hoje chamamos de distrito da Cidade Ademar consolidou-se ao longo do histórico eixo hídrico e rodoviário do Córrego do Cordeiro (a nossa Avenida Cupecê), uma área que no papel servia apenas de divisa política e que, por décadas, enfrentou o relativo abandono do poder público. Mas se o Estado demorou a trazer o asfalto e os serviços básicos, o povo das vilas não esperou de braços cruzados.
Os Verdadeiros Propulsores do Desenvolvimento
Se hoje a Avenida Cupecê é um corredor comercial vibrante e estratégico, ligando São Paulo ao ABC, o mérito histórico pertence à evolução e ao adensamento das nossas vilas mais antigas e estruturadas.
O Jardim Míriam despontou muito cedo como o verdadeiro polo de atração da região. Por sua posição geográfica estratégica, tornou-se um entroncamento natural de passagem e parada de ônibus, fazendo com que o comércio de rua e as primeiras grandes feiras e mercados se concentrassem ali. O Jardim Míriam já estava muito mais evoluído e movimentado enquanto o miolo do loteamento da Cidade Ademar não passava de glebas de terra vazias em panfletos de campanha.
Ao mesmo tempo, a Vila Missionária e a Vila Joaniza davam aulas de dignidade e organização comunitária. Na Vila Missionária, a ocupação foi marcada pelo poder da união e da autogestão. Onde antes só havia estradas de terra e eucaliptos, as famílias se organizaram por meio de comunidades de base e mutirões para erguer as primeiras capelas, salas de aula e reivindicar o transporte. Na Vila Joaniza, a marcha da periferia seguiu o mesmo ritmo: uma massa de migrantes e operários construindo suas casas tijolo por tijolo, forçando a chegada da iluminação pública e transformando o bairro em um polo residencial densamente povoado e autônomo.
Cidade Ademar: O Nome como Território Político
Afinal, onde fica a “Cidade Ademar” nessa engrenagem? Historicamente, ela era uma área bem pequena. O nome foi oficializado e inflado em um contexto puramente eleitoral na década de 1950, apadrinhado pelo prefeito Wladimir de Toledo Piza para catapultar a vitoriosa campanha de Adhemar de Barros à prefeitura em 1957. Batizar o loteamento com o nome do líder populista era uma poderosa ferramenta de propaganda em uma periferia que crescia a passos largos.
Portanto, a “Cidade Ademar” nasceu como um conceito de território político — um guarda-chuva administrativo que, anos mais tarde, a prefeitura utilizou para unificar e dar nome ao distrito e à subprefeitura.
A Força do Conjunto no Bairro do Cupecê
Neste aniversário, o nosso parabéns não vai para a velha engrenagem política do século passado, mas sim para o conjunto de bairros que pulsa ao longo do Grande Cupecê. O verdadeiro patrimônio da nossa região é a herança de resiliência que conecta os antigos quilombolas do século XVIII — que já usavam nossas matas como trincheira de liberdade — aos moradores atuais que lotam as linhas de ônibus e movimentam a economia local.
Jardim Míriam, Vila Missionária e Vila Joaniza são os pilares reais que sustentam essa imensa comunidade. Que nesta semana de celebração, possamos reconhecer que a nossa história não é feita de decretos políticos, mas da coragem e do orgulho de quem transformou a franja esquecida da Zona Sul no lugar onde temos a honra de viver e trabalhar.


