A cobrança individual por autoridade ignora pesquisas globais, e a ânsia tecnocrática de redes como a de SP e o abandono de gestões e governos que omitem suas obrigações.
Por Sérgios Pires
Uma imagem que circula nas redes sociais sintetiza o desabafo represado nas escolas públicas: “‘Domínio de sala’ é algo que inventaram para colocar na conta do professor a falta da família e do Estado.” Longe de mero descontentamento corporativo, o bordão escancara uma engrenagem perversa: a responsabilização do docente por um ambiente degradado que é, na verdade, fruto direto da omissão de governos e da apatia de gestões escolares.
O especialista e pesquisador Júlio Groppa Aquino, referência nos estudos sobre indisciplina na Universidade de São Paulo (USP), alerta há anos que tratar o descontrole em sala como limitação individual é um erro conceitual grave. A indisciplina não é falha do “método de controle” do professor, mas um sintoma de um ecossistema educacional desarticulado.
Os dados ratificam o colapso. A Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (TALIS), realizada pela OCDE e aplicada no Brasil pelo Inep, aponta que professores brasileiros perdem 21% de todo o tempo útil de aula apenas tentando controlar a desordem — contra 15% na média internacional. Na prática, 1 a cada 5 horas de aula é desperdiçada em interrupções. O estudo revela ainda que 47% dos docentes relatam sofrer intimidação ou agressão verbal de estudantes (contra menos de 25% na maioria dos países), enquanto apenas 14% se sentem valorizados pela sociedade.
Plataformização – O cenário ganha traços de requinte de crueldade em redes como a do Estado de São Paulo, onde a gestão pública substituiu o suporte pedagógico pela obsessão por plataformas digitais e aplicativos de monitoramento. Estudos da APEOESP e do DIEESE mostram que 83,2% dos educadores paulistas relatam aumento na carga de trabalho devido ao uso dessas ferramentas.
Em vez de oferecer mediação de conflitos ou equipes multidisciplinares com psicólogos e assistentes sociais, o Estado impõe a “gestão algorítmica”: 86,3% dos professores sentem que as plataformas operam como instrumentos de vigilância e cobrança de metas, forçando-os a preencher relatórios enquanto a sala pega fogo. O resultado é uma epidemia de adoecimento: 60,3% dos educadores estaduais e mais de 60% da rede municipal de SP já precisaram se afastar do trabalho por problemas de saúde, sendo que o adoecimento mental atinge a marca estarrecedora de quase 98% da categoria na rede estadual.
Gestão escolar – Paralelamente, muitas direções e gestões escolares eximem-se do seu papel institucional. Cobram que o professor “domine a turma”, mas devolvem alunos reincidentes em atos graves de indisciplina para a sala sem nenhuma sanção, acompanhamento ou diálogo com as famílias. Transforma-se o educador em um equilibrista solitário, responsável por conter as mazelas da vulnerabilidade social e da falta de estrutura com a própria saúde mental.
Exigir “domínio de sala” sem fornecer suporte institucional, autoridade pedagógica e condições dignas de trabalho é uma fraude burocrática. O controle do ambiente escolar não é uma virtude heroica individual, mas o resultado natural de uma gestão escolar atuante e de um Estado que assume sua responsabilidade.
Análise sobre Indisciplina e Valorização Docente
Este vídeo analisa os dados da pesquisa TALIS/OCDE e discute o impacto da indisciplina e da falta de suporte institucional na rotina e na saúde dos professores.



