Projeção aponta alta da população em situação de rua na Cidade Ademar e periferias da Zona Sul e do ABC.
Estudo estatístico baseado nos censos oficiais estima que o distrito de Cidade Ademar pode alcançar entre 220 e 290 pessoas nas ruas em 2026; quebra de vínculos familiares, dependência química e desemprego figuram como os principais fatores de vulnerabilidade na capital.
SÃO PAULO — A vulnerabilidade social nas periferias da Zona Sul paulistana e das cidades vizinhas do ABC mostra uma trajetória persistente de expansão. Uma análise estatística realizada a partir dos dados dos Censos da População em Situação de Rua da Prefeitura de São Paulo (2015, 2019 e 2021) aponta que o distrito de Cidade Ademar pode atingir um contingente estimado entre 220 e 290 pessoas em situação de rua em 2026.
Os dados históricos oficiais do município ilustram a evolução do fenômeno no território: em 2015, o censo contabilizou 71 pessoas no distrito. Em 2019, o número saltou para 136 e, no levantamento de 2021, alcançou 154 pessoas (sendo 91 pernoitando nas vias públicas e 63 acolhidas na rede socioassistencial).
A aplicação de dois modelos de projeção estatística para o período de 2021 a 2026 resulta no seguinte intervalo:
- Crescimento Absoluto Médio (Cenário Conservador): Considerando a média de acréscimo anual do período histórico (aproximadamente +12,6 pessoas/ano), a estimativa para 2026 atinge 217 pessoas.
- Crescimento Percentual Composto (Cenário Dinâmico): Projetando a taxa composta de crescimento acumulado do período histórico durante os cinco anos subsequentes, a estimativa alcança 294 pessoas.
A estimativa matemática acompanha a tendência observada em outros distritos da Zona Sul e nas cidades limítrofes do ABC Paulista.
Projeção Estatística Comparativa para 2026
Distritos da Zona Sul de São Paulo
| Distrito | Histórico 2015 | Histórico 2021 | Projeção 2026 (Absoluta) | Projeção 2026 (Percentual) | Intervalo Estimado (2026) |
| Cidade Ademar | 71 | 154 | 217 | 294 | 220 – 290 pessoas |
| Santo Amaro | 210 | 485 | 702 | 974 | 700 – 970 pessoas |
| Jabaquara | 88 | 198 | 281 | 389 | 280 – 390 pessoas |
| Vila Mariana | 245 | 530 | 733 | 1.008 | 730 – 1.000 pessoas |
| Campo Limpo | 45 | 115 | 173 | 251 | 170 – 250 pessoas |
Cidades do ABC Paulista
| Município | Histórico 2015 | Histórico 2021 | Projeção 2026 (Absoluta) | Projeção 2026 (Percentual) | Intervalo Estimado (2026) |
| Santo André | 420 | 610 | 768 | 833 | 770 – 830 pessoas |
| São Bernardo do Campo | 380 | 580 | 747 | 825 | 750 – 825 pessoas |
| Diadema | 120 | 210 | 285 | 335 | 285 – 335 pessoas |
| Mauá | 90 | 160 | 218 | 258 | 220 – 260 pessoas |
Os motivos de idas para a rua: conflitos, dependência química e desemprego
A trajetória em direção à situação de rua decorre de múltiplos fatores socioeconômicos e relacionais. De acordo com os dados da Pesquisa Amostral de Perfil Socioeconômico do Censo da População em Situação de Rua de São Paulo (SMADS/Prefeitura de SP), os principais motivos declarados pelos entrevistados para irem viver nas ruas dividem-se em três eixos centrais:
- Rupturas e conflitos familiares (34,7%): É a principal razão apontada. A quebra de vínculos afetivos e desentendimentos domésticos atuam como o principal gatilho inicial para o desligamento da moradia habitual.
- Dependência de álcool e outras drogas (29,5%): O uso nocivo de substâncias psicoativas e a dependência química aparecem como o segundo fator mais citado, associado tanto ao agravamento de conflitos pré-existentes quanto ao processo de vulnerabilização.
- Perda de trabalho e renda (28,4%): O desemprego, a informalidade e a impossibilidade de manter o pagamento de aluguel ou moradia formal fecham o tripé das causas imediatas.
O levantamento também aponta que, após a ida para as ruas, 42,8% dos indivíduos ficam sem trabalho formal ou informal, enquanto 33,9% sobrevivem realizando “bicos” temporários.
Retranca: A conexão metropolitana entre Cidade Ademar e o ABC Paulista
A mobilidade geográfica da população em vulnerabilidade integra a Zona Sul de São Paulo aos municípios do ABC. O distrito de Cidade Ademar compartilha divisa direta com o município de Diadema ao longo do eixo viário da Avenida Cupecê, formando um corredor contínuo de fluxo populacional e de serviços.
Enquanto Diadema apresenta projeção para 2026 na faixa de 285 a 335 pessoas, os maiores polos do ABC — Santo André (770 a 830) e São Bernardo do Campo (750 a 825) — lideram o contingente regional. A proximidade territorial faz com que atendimentos do Serviço Especializado em Abordagem Social (SEAS) e dos Centros de Acolhida registrem trânsito constante de usuários entre a capital e as cidades vizinhas.
Fontes e Bases de Dados Utilizadas
- Prefeitura Municipal de São Paulo — Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS):
- Censo da População em Situação de Rua da Cidade de São Paulo (Edições 2015, 2019 e 2021).
- Pesquisa Amostral de Perfil Socioeconômico e Identificação de Necessidades (Anexo ao Censo 2021/SMADS).
- Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA):
- Estudos sobre a Estimativa da População em Situação de Rua no Brasil e Indicadores Nacionais (Nota Técnica/IPEA).
- Consórcio Intermunicipal Grande ABC e Diagnósticos Municipais do ABC:
- Levantamentos socioassistenciais dos municípios de Santo André, São Bernardo do Campo, Diadema e Mauá (2015–2021).
- Registros de Equipamentos Públicos Socioassistenciais:
- Dados de Capacidade do SEAS Cidade Ademar (150 vagas) e da Rede de Centros de Acolhida da Zona Sul (SMADS).


