Na periferia das grandes metrópoles, o direito ao lazer ainda é um privilégio distante para jovens e adolescentes. Sem opções em seus próprios bairros, cruzar a cidade em busca de diversão torna-se a única alternativa. Foi o que motivou Carlos (nome fictício), de 14 anos, e seus amigos a pedalarem até o Parque do Ibirapuera em um domingo recente. Lá, jogaram bola, correram e esqueceram das vulnerabilidades do cotidiano.
O retorno, no entanto, revelou a dura realidade. Já era tarde, o cansaço pesava e os estômagos estavam vazios — não havia dinheiro para um lanche no caminho. Na longa jornada de volta para casa, pedalando pela via expressa, Carlos desequilibrou-se e caiu. Foi atropelado por um caminhão. Morreu na hora.
Sendo um domingo à tarde, a pressa do horário de pico, mesmo em um domingo, cedeu lugar ao trânsito do lazer. A via foi isolada, fitas plásticas demarcaram a tragédia e o fluxo travou. Presos no congestionamento, motoristas que ignoravam o ocorrido buzinavam, xingavam a Polícia Militar e a Guarda Civil, culpando as autoridades pelo atraso, alheios à vida que acabara de ser interrompida logo à frente.
Como na genial “Construção”, de Chico Buarque, Carlos partiu “atrapalhando o tráfego”. Mas, diferentemente do personagem da canção, não agiu por estar bêbado, nem despencou de um andaime na contramão. Carlos morreu após um dia feliz. De barriga vazia, mas com a alma cheia pelo raro privilégio de ter vivido o seu próprio “domingo no parque”.



