Após incêndio que destruiu 5 mil obras, solidariedade comunitária dobra o acervo do livreiro de 73 anos. Agora, ‘Seu Jorge’ compartilha também suas próprias frases de fé e resiliência junto às milhares de doações que continuam a chegar na região do Cupecê.
Por Sérgio Pires
SÃO PAULO – A Praça Professora Lygia Maria Salgado Nóbrega, na Avenida Cupecê, voltou a se colorir com a cultura e a vida, mas de uma forma ainda mais vibrante. Há dois anos, o cenário era de desolação e cinzas, após um incêndio misterioso na madrugada do dia 17 de julho de 2024, devorar a totalidade dos 5 mil livros que Jorge Martins, o querido “Seu Jorge”, de 73 anos, protegia sob uma lona. Um acervo construído com dedicação ao longo de 39 anos, que parecia ter chegado ao fim.
A Onda de Solidariedade: Dobrando a Vida
Como já reportado por diversos portais de notícia na internet, a tragédia não pôde conter o carinho que a comunidade nutre por Seu Jorge. A região do Cupecê, zona sul de São Paulo, mobilizou-se imediatamente. A história, que se espalhou como pólvora pelas redes sociais, tocou corações de vizinhos, amigos de longa data e até de desconhecidos.
A resposta foi avassaladora. Em questão de dias, as mesmas ruas que assistiram ao fogo se encheram de pessoas e veículos carregados de novas obras. A força da solidariedade superou todas as expectativas. Doações chegaram de toda parte, e Seu Jorge conta que já perdeu a conta exata, mas estima que o acervo hoje passe dos 10 mil exemplares, mais que o dobro do que ele possuía antes do incêndio. “O povo brasileiro é muito caridoso, só tenho a agradecer”, afirmou ele, comovido, em entrevistas anteriores. As imagens agora mostram uma extensão ainda maior de livros dispostos sobre a lona azul, cobrindo o murete da praça.
A Nova Fase: Palavras que Iluminam



A resiliência de Seu Jorge é tão inspiradora quanto a própria solidariedade. Na reabertura de sua banca ao ar livre, ele introduziu um elemento novo e poderoso: a sua própria voz. Junto às lombadas coloridas, agora se destacam grandes cartazes brancos feitos à mão, com frases escritas por ele. Suas palavras, simples e profundas, trazem mensagens de fé, esperança e gratidão, transformando o espaço não apenas em um ponto de leitura, mas em um local de reflexão para todos que passam pela movimentada Avenida Cupecê.
As frases capturadas nas imagens recentes com pequenos erros de Língua Portuguesa são lembretes poderosos:
- “DEUS SÓ DA O SÓFRIMENTO PARA QUEM PODE AGUENTAR”
- “DEUS AJUDA TODO MUNDO MAIS VOCÊ TEM FAZER A SUA PARTE”
- “SE DEUS É POR NÓS QUEM SERÁ CONTRA NÓS”
- “QUER SER FELIS NÃO LEVANTE RECLAMANDO AGRADEÇA DEUS POR (SIC) MAIS UM DIA VIDA E AME”
- “QUER VIAJAR PELO MUNDO SEM GASTAR PRATIGUE A LEITURA”
- “AS COISAS CONSEGUIDA COM SACRIFÍCIO TEM MAIS VALOR”
- “NÃO JOGUE LIVROS FORA LIVROS É CULTURA”
- “O POUCO COM DEUS É MUITO SEM ELE NÃO VALE NADA”
Essas frases agora fazem parte da identidade da “Livraria da Praça”, emprestando uma nova camada de significado a um espaço já tão rico em história.
Uma Praça em Contraste: A Solidariedade e a Falta de Cuidado
Embora a história de Seu Jorge seja um farol de luz, a praça em si conta uma história paralela sobre a manutenção dos espaços públicos. Nos últimos tempos, a praça ganhou novas intervenções artísticas, com grafites coloridos cobrindo muretas e estruturas de concreto. De longe, eles parecem um esforço de revitalização, mas, de perto, o descaso é evidente.
Muitas das pinturas já estão desbotadas pelo sol e pela chuva, com a tinta descascando em vários pontos. As intervenções artísticas, que deveriam embelezar e celebrar a cultura, agora competem visualmente com as placas e cercas amareladas e gastas, e com a fiação caótica que domina o céu da região.
A falta de um plano de manutenção regular é visível, o que levanta questões sobre a longevidade dessas obras e o compromisso real com a preservação do espaço público. O contraste entre a solidariedade comunitária que reergueu Seu Jorge e o estado precário da infraestrutura ao redor é um lembrete incômodo da necessidade de uma gestão urbana mais atenta e contínua.
Seu Jorge e sua banca de livros são uma lição viva de resistência e amor pela cultura. A praça que o abriga, no entanto, ainda aguarda o mesmo nível de cuidado e dedicação que ele dispensa a cada um de seus livros.


